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O importanta é ter fé

por aquimetem, em 26.09.10

 

          A primeira referência que tive de Cavez, recolhi-a de Camilo; em qual das suas obras, não me lembro. Conhecer e visitar pessoalmente a terra só já muito mais tarde quando na década de 60 em passeio pela região de Basto fiz uma viagem do Arco de Baúlhe para Mondim (via Ponte de Cavez,  Agunchos  e  Atei ).  Nessa ocasião nem tempo tive de na Quinta da  Casa da Ponte ver de perto a capela de  São Bartolomeu. 

          Mas fiz questão em me demorar alguns minutos por ali a contemplar a obra cujas origens remontam ao séc. XIII;  e que certos autores atribuem a Frei Lourenço Mendes, da Ordem dos Pregadores de Guimarães: A Ponde de Cavez, MN, desde 1910. Que dizem foi ali sepultado," Esta é a ponte de Cavez, aqui jaz quem a fez".     

           Sobre o rio Tâmega, e com o tabuleiro ao serviço da EN 206, esta medieval obra publica com os seus arcos desiguais, uns quebrados, outros redondos, enormes e robustos talhamares  afrontando a correnteza, foi restaurada no tempo de D. Manuel, e conserva ainda hoje a traça do séc.XVI. 

           De um lado da ponte (a Norte) fica a capela de São Bartolomeu, onde os devotos vão pedir favores, do outro lado (a Sul) fica a fonte das águas sulfurosas que "o  povo utiliza  em doenças de pele vindo buscá-la em panelas, cântaros, etc., e tempos houve em que doentes do hospital de Braga vinham aqui tomar banho. Segundo a tradição os efeitos eram mais notáveis desde que o doente lançasse rio abaixo as roupas interiores que trazia vestidas". Este costume ainda se mantém, vendo-se em volta da fonte diversas peças de roupa abandonadas, não só roupa interior, mas também calças, camisas, saias e blusas espalhadas no canavial que separa a nascente do rio.

 

           A escaleira em cimento, com corrimão em tubo de ferro, de cerca de 80 m,  por onde agora se desce até ao sítio da Fonte Milagrosa, a jusante do ponte,  deve-se à promessa de um emigrante que se curou com essas águas, e foi concluída em 1992. 

           Com regular caudal, a água corre de uma bica para  uma pia de pedra, da qual transborda  para o rio a cerca de sete metros.  Defronte à nascente, do outro lado do rio,  fica a capela de São Bartolomeu que pertence à Qta. da Casa da Ponte e é obra barroca, onde se venera  a imagem do santo e se guardam ex-votos de romeiros-aquistas.   

          Quando o Tâmega fazia aqui fronteira entre as duas províncias, ficando a  capela do lado do Minho e a Fonte Santa na margem transmontana, havia grande rivalidade entre vizinhos que por altura da festa do santo (24 de Agosto) se prestava a grandes arraiais de pancadaria que em Maria Moisés nos é relatado por Camilo. Assim:  "na noite de 24 de Agosto, quando em Cavez se festeja o S. Bartolomeu, os festeiros do Minho brigam com os de Trás-os-Montes, segundo o bárbaro estilo daquela romagem. O tiro de ambas as margens do Tâmega principiou às dez da noite. Ao romper da alva,  os  turbulentos acometeram-se peito a peito de clavinas engatilhadas, e dos dois valentes que caíram mortalmente na ponte, um era o noivo da Joaquina". Na questão de rivalidade provinciana uma divisão administrativa sem logica nenhuma fez estender ali o território da freguesia de Cavez (Cabeceiras de Basto) a uma nesga da banda de lá do rio (Ribeira de Pena), e assim apoderar-se da Fonte Santa que era de Trás-os-Montes.

 

           Lá fui no passado dia 9 de Agosto fazer uma passageira romagem ao santo e na fonte das águas sulfurosas de Cavez encher uma garrafinha que dizem fazer muito bem às verrugas. E como diz o feitor da Qta da Casa da Ponte, o importante é ter fé.  

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Fonte biográfica: Termas concessionadas

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publicado às 14:48


3 comentários

De mg a 29.09.2010 às 23:15

Lindas paisagens, boas fotografias...
è um lugar bonito e misterioso...mas aqueles rituais esquisitos, das pessoas se despirem de todo, para tomar benhos, e largarem as roupas pelo rio abaixo à deriva...um horror...! Arrepia, ensombra o lugar.Deve parecer que alguêm se afogou e veio depois , o vestuário à superficie.
Não consigo ver fé, nisto ,conterrâneo, sinceramente...
Agora a lenda das guerrilhas nas margens do Tâmega, interessante.

De aquimetem a 03.10.2010 às 17:39

Ali como em muitos outros lugares onde a religião popular se manifesta é normal ver associado ao religioso episódios que destoam da verdadeira fé cristã. São manifestações que a Igreja sempre reprovou, mas que a ignorância e a superstição se encarregam de alimentar . Falta de doutrina, e ao mesmo tempo resultado daqueles que se dizem: "Sou católico, mas não praticante"

De Antonio Teixeira Fernandes a 20.08.2015 às 11:59

a obra de Camilo chama-se Como ela o amava

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